Historial

Historial

Nos primeiros anos de trabalho navegámos no espaço vazio. Fernão Mentes, Gil Vicente, D. João V... Um ciclorama, um mapa, um reposteiro. Luz, linóleo, roupa. Nunca tivemos cenários tão belos.  A Barraca ainda não abandonou as lições de Brook quer no que diz respeito à estética quer no seu conselho contra “o aborrecimento” e sobre a função do actor no espectáculo. Assim, colocamos no trabalho e no jogo do actor o nosso mais alto investimento cenográfico. O corpo físico do actor bem como a roupa que a personagem enverga e a define são na maior parte das produções a nossa principal cenografia. Uma ou outra rampa. Uma ou outra escada. O trabalho da cenografia está fundamentalmente em dimensionar e tornar belo, significante e surpreendente o espaço que se quer o mais vazio possivel.

Também o anseio de Lorca pela agilidade de cada produção teve na Barraca uma marca indelével. Porque como ele pensamos que não há vida livre sem cultura, trabalhamos em conformidade com isso porque como teatro cidadão em que nos reconhecemos, pensamos que os contribuintes, de perto ou de longe, têm direito a beneficiar em situação de paridade do contributo dos seus impostos. E também porque sempre quisemos que as nossas peças fossem vistas por toda a gente.

Agilidade na montagem e remontagem e espaço livre onde a imaginação de quem vê e quem faz possa completar o espectáculo que se apresenta e observa. São esses os dois desafios que incessantemente nos colocamos em cada novo trabalho.

Nesta altura já não sabemos se as lições de Lorca e Brook teriam na Barraca o efeito que tiveram se a Companhia tivesse sido ao longo da sua vida generosamente apoiada. Muito dificilmente se mede o efeito do passado no presente. Foi assim. E a estética que a pobreza de recursos ajudou, alimentou-nos um gosto e uma moral. Há já muito tempo que queremos ser assim. Investimos no tempo de ensaios, nos trabalhos complementares, na permanência dos actores na Companhia, convictos que só em companhias estáveis se produz o teatro que nos interessa fazer. Mas a manutenção de uma Companhia estável é mais cara do que muitas cenografias. Só que em arte não se podem separar os universos. Digo gestão - digo estética. Por isso, A Barraca não pára de fazer sessões para manter a Companhia. Por isso, A Barraca aceita todos os convites, mesmo em péssimas condições, para manter a Companhia. Por isso grande parte das pessoas trabalhou durante estes últimos anos, horas sem fim pro bono, para manter a Companhia. Porque a Companhia é o corpo dos actores que dá corpo às peças, o corpo dos técnicos que dá luz às peças. A Companhia é a voz que atende o público, sem o qual não vivemos.

Maria do Céu Guerra

 

 

 

 

veja aqui o vídeo dos 30 anos da companhia, em 2006

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