Sob a influência estética de William Faulkner, surgem-nos apresentados, neste espectáculo, de forma elíptica e fragmentada, momentos da vida de personagens em ruptura.
Jett Pierce, escritora atormentada por uma crise de identidade e falta de inspiração literária vive em NY o remorso de não ser capaz de lidar com a doença da mãe, Isabel, uma mulher criativa e sonhadora e talentosa, que viveu uma vida inteira à espera de que lhe acontecesse alguma coisa.
Durante o desenrolar da acção assistimos a Jett a lidar com a hipótese de voltar para casa da mãe, em Oxford, no Mississipi, na esperança de reencontrar as suas raízes e de ser capaz de cumprir o seu papel de filha, lidando com a atomização da personalidade da mãe e com o desmoronar das suas referências.
Nesses encontros, em que NY se funde com a Louisiana, permitindo que as personagens se encontrem, cresce o conflito entre a mãe, a filha que partiu e Claire, a irmã que ficou.
O conflito entre as duas irmãs nasce da diferença de formas de lidar com o mal de Alzheimer: Jett não desiste de tentar chamar a mãe à realidade enquanto Claire, leitora voraz de O Som e a Fúria - uma rapariga desengonçada que corre até ao lago de cada vez que ouve a bicicleta de Faulkner dirigir-se para lá na esperança de poder falar com o escritor que alimenta o seu imaginário - desenvolveu a capacidade de acreditar que a realidade se pode apresentar sob vários planos e permite e embarca nos delírios da mãe na esperança de que o sítio onde ela está seja melhor do que aqui.
Rita Lello
fotos de ensaios e da sessão fotográfica para o cartaz
O que diz a autora sobre "A Bicicleta de Faulkner":
A família Pierce é fictícia. Comecei por escrever uma peça sobre duas irmãs e uma mãe e, de algum modo, o William Faulkner apareceu na obra. Veio do meu fascínio e paixão pelo Sul da América e seus escritores. Eu tinha-me mudado do Canadá para o Sul e era realmente um mundo novo. Há algumas coisas na peça que foram inspiradas nas cartas de William Faulkner e eu usei algumas delas como elementos impulsionadores. Tentei também aplicar na peça uma estrutura mais impressionista, que viesse da essência do seu trabalho.
Tentei que o Faulkner da minha peça se “parecesse” com o Faulkner real, mas provavelmente não há registos dele a andar de bicicleta pela cidade e a caír em charcos, apesar de haver muito indícios de abusos com a bebida. Tentei manter a personagem, sem fazer dela um retrato biográfico documental. Quanto à sua relação com a família daquelas mulheres, parte disso foi inspirado nos seus romances, outra pequena parte inspirada nas cartas. Creio que, na realidade, Faulkner teve um caso com uma mulher muito mais nova, quando tinha cerca de 60 anos. Não me baseei nisso, de forma alguma, mas foi um salto para uma história que eu queria escrever, sobre a intersecção daquelas vidas.
Heather McDonald
Maria do Céu Guerra | Rita Fernandes | Sérgio Moura Afonso | Susana Costa
Maria do Céu Guerra
Onde nos leva esta bicicleta?
O que mais me estimula nesta Bicicleta de Faulkner é a razão que me trouxe a ela: a abordagem da doença de Alzheimer, patologia que assusta naturalmente todos aqueles que usam a memória como ferramenta e a entendem como imprescindível condição de conhecimento.
É hoje, é ontem, é agora mesmo na infância. O outrora agora de Pessoa.
Sérgio Moura Afonso
Faulkner, era um nome que pouco me dizia. Curioso, pois é o primeiro na minha estante, um livro velho que eu nunca tinha lido.
Fácil de encontrar. O livro, não o autor/ personagem. Ele, romancista, sulista de boas famílias, Prémio Nobel, alcoólico, bígamo, reservado.
O livro, castanho, pequeno, com cheiro a bafio e com o título de “Os Invencidos”. Citação desta obra: “ … um conjunto de pessoas que podiam render-se mas que jamais poderiam ser vencidas.”
Rita Fernandes
“Não faz mal mãezinha. Não faz mal. Não faz mal Jett. Não faz mal. Não faz mal?...
Eu… Eu não existo. Não faz mal. Eu existo. No meu pensamento, nos meus pensamentos, nos meus sentimentos, na minha vida. Qual vida? Esta, esta que ninguém conhece, esta que eu construo dentro de mim… e fora de mim. Esta que vive no meu coração e na minha vida interior. E ali. Ali! Ali, onde eu descobri essa vida.
Preciso de mais tempo? Mais tempo para quê? Não faz mal mãezinha. Não faz mal Jett.
Não faz mal.”
Susana Costa
“Pediram-me que escrevesse umas linhas sobre a Jett, mas eu não fui capaz. Pedi à Jett que as escrevesse por mim, mas ela não foi capaz. É isso a Jett. Não ser capaz de ser aquilo que a define, uma escritora (ou como ela diria, "Mais ou menos!"). Não ser capaz de saber quem é. Não ser capaz de encontrar o caminho de casa, de lidar com a doença da mãe, com a felicidade dos outros, com a espontaneidade da irmã. Essencialmente, não ser capaz.”
Ficha Artística e Técnica Autora: Heather McDonald Tradução: Miguel Martins Encenação de: Rita Lello Música de: Bernardo Sassetti Assistência de encenação: Sérgio Moras Cenário de: Miguel Figueiredo realizado por Mário Dias Elenco: Maria do Céu Guerra, Rita Fernandes, Sergio Moura Afonso e Susana Costa
Adereços: Mário Dias, Luis Thomar Luminotecnia: Fernando Belo Operação deSom: Ricardo Santos Montagem e Carpintaria: Mário Dias, Luis Thomar Apoio à Montagem: José Carlos Pontes Costureira: Inna Siryk Produção: Marta Gato Secretariado de Produção: Inês Aboim Relações Públicas: Elsa Lourenço Cartaz: Elsa Lourenço Programa: Pedro Borges Secretariado: Maria Navarro Fotografia: Luis Rocha – MEF
Horário
5ª a Sábado às 22h00
Domingo às 17h00
na sala 1 do TeatroCinearte
Bilhetes 12,5€
10€ - Menores 25, Maiores 65, Profissionais Espectáculo, Estudantes, Reformados e
Grupos (+ 15 pessoas)
Preço Especial à Quinta Feira: 5€